Implicar-se: quando o desejo deixa de esperar
Há um ponto silencioso, quase imperceptível, em que o sujeito deixa de esperar que algo aconteça e passa a responder por si.
Esse ponto não é entusiasmo. Não é certeza. Não é estar bem.
É implicação.
Na clínica, implicar-se não significa querer mudança. Significa assumir o custo de mudar.
Muitos chegam desejando alívio, compreensão, respostas.
Poucos chegam dispostos a sustentar o tempo, a repetição, o desconforto que todo processo verdadeiro convoca.
Porque implicar-se não é intenso é contínuo. E continuidade exige algo raro: presença.
Processo terapêutico não se constrói no improviso. Ele pede tempo, frequência, compromisso.
Não por rigidez técnica, mas por cuidado com o vínculo. Onde tudo fica em aberto, o desejo não se organiza.
E sem desejo organizado, não há trabalho possível apenas circulação, adiamento, promessa.
É comum confundir silêncio com profundidade. Mas o silêncio, sozinho, não basta.
Ele só vira análise quando encontra responsabilidade.
Quando deixa de ser fuga e passa a ser gesto. Quando o sujeito não terceiriza o próprio tempo, nem deposita no outro a tarefa de sustentá-lo.
Implicar-se é aparecer, mesmo quando dá vontade de sumir. É responder, mesmo quando não se tem clareza. É sustentar o combinado, não como obediência, mas como escolha.
Por isso, o enquadre não existe para controlar o sujeito. Existe para proteger o trabalho.
Para que o espaço terapêutico não se transforme em mais um lugar onde tudo pode ser adiado, negociado, abandonado sem consequências.
A análise começa quando o sujeito sai da espera.
Quando deixa de aguardar o momento ideal, o humor certo, a coragem perfeita.
E entra, ainda imperfeito, ainda dividido, na própria história.
Implicar-se é isso: não estar pronto, não estar bem, mas não desaparecer de si.